A tarde da canção inesperada

miro

Parte 1 – Um plano mui complexo

Havia decidido. A criança tinha de morrer. Agora, era o caso de fazer parecer acidente.

Pirralha insuportável.

Que morte mereceria? Pessoalmente, queria meter uma bala naquela cabeça em formação. Bang Bang, sua puta! Bang Bang, finda voz esganiçada. Bang Bang. Crânio esmigalhado, buraco de bala entre os olhos. Sangue de um vermelho quase cenográfico espirrando pela parede.

Mas seria um tremendo problema. Como sumir com o corpo da infante? “Tia, tiaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, tiaaaaaaaaaaaaaa, olha meu corpo aqui tiaaaaaaaaa”. Como grita aquela pirralha! Como precisava de um sono, de um descanso daquela menina.

yoshitakanardoni

A antipatia foi espontânea e irredutível. Ao primeiro encontro com a menina, na época uma simpática garotinha de uns sete anos, sentiu aquela pontada de ódio. Sensação essa que se repetiria sempre à simples presença de Nádia. Nadinha, chama ela de Nadinha, amor!”

O namoro corria as mil maravilhas, e o idiota de Eduardo tinha de me arranjar essa filha! Filha como? Corno filha da puta! A menina nascerá em um deslize da adolescência, lhe explicará. Mas agora não era um deslize que lhe enchia a paciência, era um monte de banha babando em seu colo, vomitando em sua sala e chorando na hora de sua foda. Foda. Tava foda agüentar essa criança.

E quantas vezes não pensou em abandonar esse banana do Eduardo! BANANA! Tremendo bananão. Invés de tirar a menina da vida, empurrar pra mãe da pestinha, ou pros avós, vivia enfurnando a garota pela casa. Era semana santa, natal, dia de reis, folia de reis, disney no gelo. Um saco. Não podia agüentar essa vida muito tempo. O casamento decerto iria dar um jeito nisso. Senão, a barrigada haveria de funcionar.

Mas que! Nada disso. Suzana engravidou direitinho, como a boa moça que era. E iria dar a Eduardo (banana, banana, banana) um lindo pentelho pra competir com Nádia. Nadinha! E olha que surpresa boa, nasceu um menino, o sonho de qualquer papai.

Mas não estava bom o suficiente para Eduardo, que continuou obcecado com a presença de Nádia. E dava presentes a garotinha: Vestidinho de princesa, bolo em formato de coração e festinha com um maluco fantasiado de Curupira. Tudo pra agradar a porcaria da criança. E beijava a menina, fica à carinhando e adulando em regime full time. E quando estavam distantes passavam horas se falando ao celular, como dois namorados. “Papai lindo” pra cá, “filhotinha princesuca” pra cá. E tome açúcar! Diabéticos passem longe desses dois!

Mas agora depois de cinco anos de casada, cem mil fraldas trocadas, quinze mil buscas no balé, e trinta e sete passeios no zoológico, Suzana gritou chega. Havia decidido. A criança tinha de morrer. Agora era o caso de fazer parecer acidente.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

~ por cafasorridente em fevereiro 11, 2009.

4 Respostas to “A tarde da canção inesperada”

  1. uahuahuahuahau

  2. Muito legal o texto. Acho que mais do que humor negro, ele fala um pouco da mente humana. Gosto quando você cai por esse lado porque somente pessoas com a sua coragem (e demência) tocam em certos pontos relevantes. Parabéns, cafinha! beijão

  3. Opa! Muito me envaidece. Em breve no Overmundo.

  4. adoro os desenhos de miro!

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