Uma tarde sangrenta nas montanhas – Parte I

valverde_p64

Algo errado no hospital

André estava tendo um dia cheio. Duas horas de engarrafamento. Centro de Contagem – área hospitalar. Hospital João XXIII. Toda sexta-feira era a mesma merda. Cumpria serviço comunitário. Desrespeito à autoridade. Ou qualquer nome que advogados costumam usar. Chamara em determinada discussão um policial de ‘gambézinho de merda’. Cana. Pancada. Terror na cadeia. Pena. E desde então, toda sexta-feira era a mesma merda.

Fumava um Hollywood vermelho enquanto esperava na recepção da área de feridos gravemente. Seu serviço era esse: Ficar aguardando os familiares dos desenganados e dos irrecuperavelmente fodidos e dar as más novas. E de bônus, via o estado em que chegavam as criaturas. Mano com faca enfiada na cabeça, truta com perna esmagada ou motoboy de coco rachado. Era um serviço bem ruim e desde que começou nele, André estava fumando como o diabo.

Pensava nas coisas que tinha visto, nessa sexta extremamente bagunçada. O trânsito parado, ambulâncias e carros de cana passando como loucos. Noticiários interrompendo seu programa de rádio preferido (‘ainda bem que inventaram o mp3’, pensava). Sem falar na lotação do hospital. Muitos feridos por mordida. E que mordidas! As três e quinze chegou um cara sem o braço direito. Arrancado por uma dentada de algum animal. “Malditos pitbulls! Alguém tem que meter uma bala na cabeça dessas feras!” pensava André. Mas a teoria do surto de hidrofobia formulada por André pareceu se confirmar, quando mais cinco pessoas chegaram com a jugular em frangalhos. Casos claros de mordidas.

E assim as seis horas de expediente de Andé foram passando lentamente. Tráfego completamente paralisado em sua frente. Melodia intermitente de sirenes. E muitos gritos ouvidos dentro da CTI. “Corredor vermelho, segunda à esquerda”, costumava anunciar para as mães ou esposas desesperadas. Mas estranhamente, poucos parentes estavam em condições de pedir informações sobre seus entes queridos. Eles estavam enlouquecidos. Cedo, logo cedo essa manhã, uma família inteira foi hospitalizada conjuntamente. Enquanto papai estava com dedão do pé dentro da boca da mamãe, filhinho espumava pela boca. “É… sem valores a família brasileira encontra-se falida. Até esposa comendo dedão do maridão a gente vê hoje em dia!”, filosofava com muita sabedoria André.

18-35-11

– André, corre aqui porra!

Era seu chefe de sessão, Robertão quem chamava André. Robertão era o chefe dos enfermeiros. Negrão maciço aparecia esbaforido, chutando a porta dupla que levava á UTI. Estava com seu avental empapado em sangue e com algo que parecia gelatina escorrendo pela calça. Pelo som tom de voz, num agudo desesperado, contrastando com o vozeirão grosso de costume, André percebeu que a encrenca era grossa.

– Caralho, o que que houve Robertão? Por que me aparece assim, gritando feito uma Maria? Sabe muito bem que meu trabalho não envolve limpar a bagunça que vocês açougueiros fazem aí dentro!

– Houve o seguinte: A merda tá comendo solta lá dentro! O moleque que tava espumando logo cedo teve te ser sedado que nem um javali. Teve parada cardíaca, acordou e está mordendo a porra da ala inteira! Vem me ajudar a segurar o pestinha!

“Merda de sexta! Marquei uma cerveja com a Júlia mais tarde, e ela nunca que vai acreditar que eu estava no hospital segurando um moleque traquinas com mandíbulas de jaguatirica!” pensou consigo mesmo André enquanto corria pelos corredores que levavam à ála vermelha.

Pensando em sua gata, André não percebia o movimento nas macas encobertas, ou os corpos algemados junto às próprias camas. Ouvia muitos gritos e clamores de socorro. Nada fora do costume. Concentrado em seu cigarro e pensando nas desculpas que teria de inventar para sua namorada, seguia Robertão, que resfolegava em seu passo apertado.

– Tive de trancar a porta. Pedi pro Júnior segurar o pivete até voltarmos, mas você sabe como é o frescote! Típico cruzeirense! Não consegue limpar de merda a própria bunda sozinho.

Girou lentamente a chave, enquanto dentro do quarto, imperava o silêncio. A porta emperrava em algo (um enorme berro perturbou a atenção deles). Com a ajuda de André, ambos jogaram um pedaço de algo que parecia borracha para o lado da estante. E em cima do que pareceu um monte flácido de banha e carne de churrasco, estava a criança, com a boca embevecida de um liquido vermelho rubro.

– Eta lelê! Que merda é essa? Cadê a porra do Júnior, e o que esse moleque tem na boca?

day7

André, instintivamente recuou, enquanto o infante saía de cima de Júnior (“era o corpo do gordinho! Ela estava devorando o estagiário de enfermagem!” percebeu terrificado) e pulava contra Robertão. O enfermeiro devia ter três vezes o tamanho do bestial menino, porém o impacto foi suficiente para derrubá-lo ao chão.

– Aaaaaaaaaaaah! Socorro André! Esse porra louca ta me mordendo! Aaaaaaaaaaaah!

Seu grito foi interrompido, transformando-se em um profundo mugido de dor. Sons de carne sendo arrancada do osso permeavam a soturna atmosfera do quarto. Paralisado pelo medo, André nada conseguia fazer.

Uma poça de sangue se espalhava pelo ladrilho e manchava de vermelho o alvo tênis de André. Como se tivesse despertado de um pesadelo, foi calmamente até a mesa ao lado da cama e violentamente golpeou a cabeça do moleque com o prato de alumínio que carregava a marmita dos pacientes.

Com os olhos arroxeados, e as feições distorcidas pelo ódio, o pré-adolescente do inferno voltou suas atenção para André. Esquivando-se com a ginga de um lutador de boxe, André ia sendo acuado até a parede. Percebendo que a cada passo traseiro, suas chances de sobrevivência reduziam-se, André notava a urgência de pensar num plano de fuga.

Quando achou que suas fichas no fliperama da vida haviam se esgotado, André arregalou os olhos a ponto de ver o globo ocular de seu algoz mirim ser atravessado por uma grossa agulha. Ao se virar, teve sua caixa craniana aberta por um alicate cirúrgico. Robertão acabara de salvar a vida de André. Tentava em vão estancar o profundo corte em seu pescoço, com os musculosos nós de seus dedos.

– Mas que sarna comeu esse moleque? Se liga no naco de sangue que a ferinha me arrancou. E como vou explicar essa merda pro doutor?

Ficava mais pálido a cada instante. Esguichos de sangue espirravam por todo o diminuto quarto. André estava convencido da urgência de arranjar socorro para o seu companheiro de labuta.

– Espera aqui rapaz. Vou te arrumar ajuda. Tenta pressionar esse machucado. Ou sei lá. Estarei de volta com alguém em poucos segundos.

Enquanto tampava a respiração e acelerava o caminhar, André passou pela porta com a sensação que sua sexta-feira seria pior ainda que o costume. E que a desculpa que teria de dar para Júlia, não seria muito mais absurda que a realidade.

~ por cafasorridente em abril 14, 2009.

Uma resposta to “Uma tarde sangrenta nas montanhas – Parte I”

  1. […] não atualizei essa semana para todos conseguirem dar uma lida no texto abaixo. […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: