Uma Tarde Sangrenta nas Montanhas – Parte II

necrofilia

Parte II – Turno agitado de serviço

Paula mantinha uma relação de indiferença ao seu trabalho. “Trampo é trampo” costumava afirmar para si mesma, durante os primeiros anos de serviço, com propósito de auto convencimento. Trampo é trampo.

Enquanto estancava calmamente profundo corte em formato da letra vê no seu antebraço, Paula iniciava intenso processo mnemônico. Não se perguntava a estranha razão dos ataques que sofrerá essa manhã. Mas não poderia impedir que seu fluxo de consciência questionar-se continuamente: Como fui parar num cubículo, passando as minhas horas chupando rola, num puteiro da Rua Guaicurus?”.

O que Paula ignorava era a intensidade de seu real problema: Seu outrora seguro local de trabalho, já estava invadido por zumbis acerebrados, sedentos pelas carnes da coxa e virilha de Paulete Boquete. De uma maneira extremamente literal.

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O cafetão de Paula, Trombone, tinha um gracejo pronto sempre que ela acendia um cigarro: Você fuma mais que puta apaixonada, falava, expelindo perdigotos que lhe caíam pela barba morena. Ao que Paula respondia você fode mal como um panda brocha. Risadas, qua qua qua, um tapa na orelha de Paula, e continuavam os melhores amigos. Ou pelo menos bons companheiros de trabalho. Só que no momento, Trombone esmurrava a porta, enquanto emitia grunhidos de assustar o Papa. Paula o preferia quando fazia as piadas sobre “puta apaixonada”. Por mais que elas fossem verdades.

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Paula Nascimento era uma das centenas de milhares estudantes universitárias que num êxodo cultural, rumam a capital de seus estados anualmente. Roceira até dar vírgula, presa fácil para os atrativos da cidade grande. Clichê ambulante. Possuidora de vastos seios, amplos e rosados. Ventas magníficas, de vaca premiada”, dizia Xandão, seu primeiro namorado, comunista de ocasião e canalha hereditário.Essas tetas ainda me farão rico, pensava intimamente.

E os períodos da faculdade da nutrição, passavam em flash. De estudar, não queria muito não. A família em Varginha pedia noticias, mas recebiam lacônicos: vai tudo bem, mas me arruma um vintém. De casa queria dinheiro, e as visitas á terra natal foram rareando. Queria mesmo era passar as tarde bebendo no Shopping Rosa, ali do lado do campus. E daí, ir pra casa e praticar sodomias com seu namorado. Eram tardes apaixonantes, em que Paula se rebaixava, dando vazão aos mais sórdidos caprichos sexuais de Xandão.

Sempre sacripanta, Xandão metia-se em dívidas com seus traficantes. E enfiava Paula no vicio ignominioso. Fuma o cigarrinho de artista, vai te deixar leve e feliz. E com uma fome de leão. Fuma minha tetuda!” E assim, Paula provou o primeiro baseado de maconha de sua vida. Como a cannabis é a porta de entrada para o mundo dos entorpecentes, o natural passo seguinte foi o pó de cocaína. E Paula, subserviente como só ela, aceitava tudo crendo que a palavra de Xandão era a lei e a verdade.

Começava a ser reprovada nas matérias. Sua atenção perturbada pelos demoníacos efeitos da droga, fluía pelo espaço e não se fixava jamais nas atenciosas lições de seus professores. Influenciada pela maconha, ficava agressiva e começava a engordar. Era a “larica”, uma fome inatural, que transforma qualquer porcaria na mais maravilhosa delicia. Empanturrava-se de quitutes e salgadinhos, numa sanha de grávida.

Certo dia, a caminho da casa de Xandão, demorou horas para conseguir entrar em certa calça colante. Devido ao insucesso, optou por um leve vestido de rendinhas. Sem conseguir disfarçar um esgar de nojo quando a viu, Xandão falou grosso.

– Entra no carro minha porquinha. Hoje foi te levar pra uma festinha diferente.

– O lindoco, eu to bonita? Pra onde vamos? Você tem ‘umzinho’ pra gente fumar?

– Estás linda moun amour. Claro que tenho. Mas antes você entra no carro e fica miudinha.

E assim foram, metendo-se de bairro em bairro. Via expressa até o fim, entra à esquerda no Calafate, pega a Silva Lobo (aquela avenida é a Amazonas querido?”), na segunda parada obrigatória a direita você dá uma buzinada. Perturbada pelos eflúvios do ‘gererê’, Paula nada entendia, na inebriante atmosfera do Renault Clio.

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Chegaram num pequeno estúdio. Aparelhagem de banda jogada aos cantos. Passaram por uma cortina. Forte cheiro de tabaco impregnava o ar. Vultos se moviam em sua direção. Com a consciência alterada pelo uso da planta do demônio, Paula não esboçou reação quando foi atingida por um murro certeiro na boca. Feio corte, seguido de esguicho de sangue que sujou o carpete.

“Xandão, cê ta louco? Essa puta que você arrumou vai reagir? E ainda ta sujando meu estúdio? Não admito sacanagem com minha aparelhagem!” reclamava um massivo individuo com forte sotaque paulista.

– Ih meu truta! Aproveita a viagem que essa porquinha dá que é uma beleza! E você Paulinha, curte a curra que te aprontei!

Completamente confusa, sentiu quando mãos musculosas rasgaram-lhe a calcinha. Algo viscoso e com aspecto borrachudo era espremido contra sua roliça cocha. Com um suspiro de desalento, Paula cessou sua resistência, encarando placidamente Xandão. Que fumava. Fitando o vazio, e acendendo um cigarro para cada calhorda que empalava a feminilidade de Paula, em seguidas estocadas.

Marcas indeléveis daquela negra tarde foram cravadas na alma de Paula. Seguidas vezes, Xandão a prostituía, e Paula nada argumentava. Tornara-se um autômato. Não ria, não amava. Simplesmente olhava para seu algoz amante, e seguia seus desejos e ordens. Sem nunca contestar. Mas, sem alegria. Sem vida. Um oco invólucro. Largou os estudos e tudo o mais. Sobrevivia em função de Xandão. Sabia que era usada, mas encontrou paz na não resistência. Uma odalisca no harém de todos os homens.

Uma dívida de bilhar fez com que Xandão entregasse Paula (Paulete Boquete. Boquinha de ouro e bumbum empinado) para Trombone. Estava há cinco anos nessa ocupação. E a cada dia passado sua beleza ampliava-se, a despeito da miserabilidade de seu modo de vida. Arranjaram-lhe um diminuto quartinho, no terceiro andar dum puteiro. Guaicurus com Rio de Janeiro. E lá, fazia a fortuna de seus dois cafetões e a alegria do proletário carente sexualmente. Sossego, não tinha. A mais disputada da casa, atraindo para si a inveja e a maledicência de suas colegas de trabalho.

E essa sexta estava sendo extremamente puxada. Havia combinado viagem com Xandão. Iam a uma feira em Brumadinho. As horas passando e nada de Xandão. Como havia acordado em seu cubículo fedendo a esperma e suor, Paula não havia recebido as notícias do apocalipse que se avizinhava á sua janela. Pessoas aparentemente ensandecidas atacavam com mandíbulas fora do controle os passantes. Com olhos rubros e a baba bovina dos assassinos, eram hospitalizados ou presos. Porém, os ataques nas cadeias se propagavam. Incêndios eclodiam por toda a região metropolitana. A frágil estrutura social estava prestes a romper, mas as pessoas ainda precisavam de sexo. E Paula ainda receberia seus clientes.

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Poucas horas mais cedo, Paula esteve com um garoto extremante nervoso e com ataques de sudorese (esses emosbichinhas, mas ainda precisam fuder), que empurrado pelos amigos subiu ao quarto de Paula e a penetrou confusamente. Tímido, teve pequenos ataques de riso durante o sexo, e saiu destrambelhado após a relação, deixando apenas uma nota amassada de vinte como lembrete de sua passagem.

Em seguida, muitos minutos de silêncio. Paula caminhou até a porta, olhou para os dois lados, esperando dar de cara com a fila costumeira. Nenhum som era ouvido. De repente, pesados passos subiam as escadas. Um lance de cada vez. Paula foi até sua caixinha, acendeu um baseado e deixou a porta entreaberta. De bruços, espera subserviente seu iminente amante.

Sem nem ao menos se virar, dava longas tragadas e aninhava seu rosto no travesseiro, enquanto de bruços, arrebitava suas nádegas, fortes, duras e vitais. Ouviu os passos de seu robusto cliente parar de frente da cama e paralisarem.

– O queridinho, você não quer me dar uma comidinha? Vem cá que eu to preparada. Vai colocando a camisinha que eu agüento o nabo que você tiver aí.

– Ãaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhh.

(Paula, ainda de bruços)

– Nossa você deve estar numa fissura do diabo hein? Mas não precisa fazer essa voz. Vem, vamos fazer um amor gostosinho.

– Bleeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeerrrrrrrrrrrrrrgh. Ãaaaaaaaaaaaah…

Derrotada pela timidez do gutural homem que ocupava seu quarto, Paula se vira para o susto de sua vida.

Empapado em sangue e com a parte inferior do seu maxilar pendendo frouxamente presa por um fiapo de carne, nada lembrava a humanidade que outrora existia nos olhos do vívido trocador de ônibus que estava em sua frente. Em seus bigodes, um couro cabeludo estava preso. De pé e sem seu braço esquerdo, o morto vivo estava prestes a atacar Paula á qualquer momento.

Com os reflexos perturbados pela marijuana, Paula mal pode desviar da investida do cobrador zumbi. Com as unhas de seu braço direito, arrancou pedaço de pele de Paula.  Porém, no momento da confusão, pisou em alguma substancia escorregadia que estava no chão, e como um trapezista voou pela janela lateral. Esborrachou-se no asfalto.

Em pânico, Paula vislumbrou a série de ataques que aconteciam na rua. Lembrava uma espécie de jogo ou teatro, porém os gritos e o medo lhe pareciam extremamente reais. E os barulhos também estavam em seu prédio. Correndo até o corredor, viu um Trombone que cambaleava até seu quarto, perseguido por duas garotas de programa, que na morte queriam vingança contra seu explorador.

– Me deixa entrar Paula pelo amor de deus! Me deixa entrar que essas rampeiras vão me comer vivo!

– Comer, comer, comer… Não é esse seu negócio? Então, morra por ele!

– Sua merda, te pego no inferno… Aaaaaaaaaahhhhhhh!!!

Enquanto ouvia os sons de dentadas na carne de Trombone, e suas unhas arranhando sua porta, Paula pensou em como chegara naquele ponto. Começou a estancar o corte em seu braço, que adquirira feia coloração. Mas ao invés de pensar em como iria fazer para fugir daquele lugar, sua mente perseguia Xandão, o único homem entre tantos que ela sempre amou.

~ por cafasorridente em abril 29, 2009.

3 Respostas to “Uma Tarde Sangrenta nas Montanhas – Parte II”

  1. […] quer leitura, leia o Post Abaixo. Se quiser balanço, leia os flyer acima e abaixo. E tem […]

  2. […] escrever essa semana. Muito o que apresentar na pós. Então vou protelar a próxima parte da minha história de zumbis belo horizontinos. Mas estou aqui, qualquer coisa de o […]

  3. […] – Que vou continuar minha história de zumbis To lendo muito sobre o assunto. O maravilhoso Walking Dead e outros trampos do Robert Kirkman. […]

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