Bafo – Parte 1 de 2

boca

– Oi linda, boa noite.

Meio esbaforida, entra em casa. Surpresa, não esperava ver o marido deitadâo de pantufas em cima do sofá, lata de cerveja aberta sob a barriga.

– Oi querido

Entrava em casa, se apressa para ir ao banheiro. O marido, sem motivo, estranha.

– O love, onde você vai com essa pressa? Vem aqui dar carinho pro maridinho.

– O amor, desculpa. Só vou no banheiro um cadinho. Volto num minuto, okay?

Pavio curto como só ele, Ramon perde a calma.

– Mas que merda é essa? Não admito. To aqui cansado. Me matei de trabalhar o dia todo. E você com pressa, não vem aqui me dar um beijinho? Que moda é essa? Vem cá agora, que eu to mandando.

evolucao

Ela, com o remorso e o medo em sua alma, busca uma desculpa desesperada.

– O lindão. To com bafo, comi espetinho de cebola em frente ao serviço. Fique arretado com sua gatinha não. (falava isso enquanto desesperada tentava abrir a porte do toalete).

Com um esgar de ódio, já desfigurado pela desconfiança Ramon se levanta pesado e maciço. Começa uma longa caminhada, pausada e arfante até Ana.

– Ta estranhando a fechadura no banheiro? Pois é. Deu vazamento. Tive de trancar a porta. E agora? Como faz?

Tremula de medo, diante do imenso corpanzil do esposo, Ana hesita.

– Ta quebrado o banheiro meu amor? Mas tava perfeito logo cedo…

– Pois é. Quebrado. Não ta funcionando. Portando, fica trancado.

– Mas me deixa entrar pra escovar os dentes! Por caridade.

– Não dá. Fechei o registro. Não tem água.

Daquelas moças frágeis, reféns do caráter hiperbólico do marido, Ana já ensaia um choro. Engasga as palavras.

– Amor, eu tenho que tirar esse gosto de alho da boca, pelo amor de deus. Preciso escovar os dentes.

Impassível e cruel, Ramon é irredutível:

– Antes eu quero um beijo. De língua.

Já descabelada, Ana ri nervosamente.

– Mas lindo, eu to com bafo… Cebola é brincadeira né? Dá uma fedentina danada.

– PORRA ANA, VOCÊ ACHA QUE EU SOU BURRO? ISSO É BAFO DE ALHO OU CEBOLA, PORRA?

Acossada, Ana se desespera diante daquele monólito que é seu homem. Seus olhos perscrutam seu interior, e já enxergam a visão de seu pecado. Tenta driblar Ramon, como uma desajeitada atacante, sem os princípios adquiridos na categoria de base da mentira.

– Quero um beijo. Agora. E de língua.

– Mas… mas… e o bafo? E o bafo querido?

– Comigo não tem frescura. Quero teu beijo. Sou teu marido ou não sou?

– Só me deixa bochechar um listerine antes? Lá no quarto tem.

– Beijo. De língua. Agora.

– Mas… mas…

Ramon perde completamente a compostura. Desde a mais tenra infância não admitia ser contrariado. Era o terror da petizada. Certa feita, já adolescente, amassou a cabeça dum cachorro vadio, que insistia em passar diante da argamassa que preparava para uma obra. Homem dado a explosões, mantinha Ana num estado de ânimos e exaltação que deixa a moça exausta.

– NÃO TEM MAS NEM MEIO MAS. NEM PORÉM, NEM O ESCAMBAU. VEM AQUI AGORA E ME BEIJA SENÃO TE ESMURRO A CARA. EU SOU HOMEM E NÃO ADMITO. ENTENDEU BEM? NÃO ADMITO!

Aterrorizada, Ana percebe que Ramon só iria lhe deixar em paz após ceder o beijo. Já sentindo a nostalgia do pecado, fica nas pontas dos pés e encosta rapidamente seus lábios aos do marido.

– Pronto. Beijei.

p011(continua)

~ por cafasorridente em agosto 10, 2009.

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