Eu mesmo e as escadas

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Objetivo dessa próxima lauda é o de analisar minhas experiências mnemônicas e sensoriais, à luz dos conceitos elaborados pelo filósofo norte americano J. J. Gibson. Deveria escolher local emblemático de meu município (Belo Horizonte) para entender como meu jogo de sentidos combinados, tendem a criar uma experiência única, que mesmo quando corriqueira, adquire adquirem grande importância no meu dia-a-dia.

Distanciei-me um pouco do pretendido. Ao invés de escolher um ponto fixo da urbe, preferi voltar-me a uma situação que ocorre em alguns locais de minha rotina, e que pelo desafio de sua completude sempre criam em mim um processo reflexivo. Refiro-me a dificuldade que tenho diante das escadas de minha vida. Mais especificamente, abordarei algumas escadas que sempre me desafiam, nessa cidade de ladeiras íngremes, onde se picotam montanhas até mesmo nos dias que correm.

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J. J. Gibson concluiu que os cinco sentidos clássicos (tato, visão, audição, paladar e olfativo) já não davam conta de explicar o mundo de excessos que vivemos. A contemporaneidade abarca série de sensações plausíveis, e alguns dos sentidos se misturam, impossíveis de dissociação. Criou então o sistema dos sentidos: visual, auditivo, olfativo-gustativo, orientação, háptico. Todos são etimologicamente auto-explicativos, à exceção do háptico – que seria um tato que abrangesse toda a extensão corporal.

Nem todos são fortemente ligados ao meu exemplo escolhido, porém, quando refleti sobre a feitura do trabalho (durante uma subida de escada, inclusive) o ardor no meu peito arfante era muito forte. Precisava contemplá-lo filosoficamente, nem que fosse um mínimo.

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Vamos a elas: Moro no terceiro andar dum edifício daqueles antigos: As escadas são circulares e longas. Um total de 17 degraus me separa do lance seguinte, e são dois lances por andar. Desde que moro aqui, sempre tive por hábito galgar os degraus, de dois em dois, numa corrida contra mim mesmo. O dedão do pé toca levemente o chão, e todo meu corpo se impulsiona forte e vital numa explosão muscular. Sinto imensa vida correr meu corpo. O háptico está potencialmente ligado, enquanto – tal qual um motor – meu ser funciona à máxima eficiência.

Porém, de uns anos pra cá, adquiri o habito de fumar. Incrível como a dificuldade da subida foi potencializada. Meu olfativo-gustativo perdeu um pouco de seu efeito, e a fome já prenunciada que sentia quando subia as escadas de casa em busca do almoço preparado por minha mãe, esta prejudicada.

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Outra escada que enfrento diariamente é o do meu estacionamento. Uma série de 50 degraus que corajosamente corro. Minha audição ouve claramente o bater do meu coração, entre outras particularidades do meu interior. Ritmicamente meu pulmão aspira, para em seguida encher-se de oxigênio, tal qual um balão de ar.

Quando chego atrasado à pós (como hoje, por exemplo), escolho a rota mais curta – as escadarias. São longos cinco andares, da rua Sergipe (por onde chego), até a sala de aula. Como tenho por hábito fumar um cigarro logo antes de começar os estudos, chego sem fôlego. Minha visão turva adquire um teto preto, enquanto pequenos riscos negros correm pelos cantos do meu olho. Dramatizo? Possivelmente, mas não muito, lhes garanto.

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Todo meu sistema de orientação, que nada mais é do que a combinação dos outros sentidos, torna-se prejudicado após essa explosão de esforço físico. É uma sensação momentânea, que me dá imenso prazer. Como um pequeno orgasmo, adquiro momentaneamente a noção da plenitude do meu corpo – e de como minhas pequenas ações causam conseqüências ao mesmo. Tenho vinte e poucos anos. Preciso parar de fumar. Ou talvez, eu precise começar a andar mais de elevador.

~ por cafasorridente em setembro 22, 2009.

Uma resposta to “Eu mesmo e as escadas”

  1. te falo deixar de fumar… tem coisas que o elevador nao ajuda. hahhahah

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