Líria – Parte 1

Líria – Esquete teatral autobiográfica, com humor, romance e zumbis

janela

PARTE 1

Luciano para o carro, esbaforido arremessa o cigarro fora (ainda pela metade).

­– Atrasado como sempre, história da minha vida.

Verifica os bolsos, a cata de todos os objetos que costumam estar lá. Maço (ok), celular (ok), carteira (em cima do painel), e isqueiro (bolso frontal da camisa de botões).

Telefona: ‘Cheguei.’

Tchank – portão se abre. Três lances de escada lhe esperam. Escuro escuro (tenho de perguntar à Líria onde acendo essa porra de luz).

Arfando, verifica semelhanças entre essa subida de escada e todas as outras que já executou. Anda pensando muito em escadas.

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Ninguém em casa. Ansioso – quer acender um cigarro, mas segura a onda.

(áudio de risadas e aplausos pré-gravados – grande ovação quando Luciano entra na sala)

Luciano: Líria?

­Líria: To aqui no quarto.

Nervoso, coça nervosamente uma espinha em seu cocuruto. Se sente como um cão que apanhou muito do dono, e mesmo na iminência de carinho, eriça os pelos das costas e range os dentes.

Líria está no computador. Seriedade em seu rosto.

Luciano: Boa noite linda (calmamente beija sua testa – como um pai).

Líria: Oi Lu (sorriso amarelo).

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(o áudio pré-gravado suspira diante do momento romântico)

Luciano: Lí, eu andei pensando, nas vogais.

Líria: Como assim Luciano?

Luciano: Explico:  se eu tivesse de dizer “essa é uma vogal feminina eu iria me referir a vogal A”. Certo?

Líria: Certo, faz certo sentido. (tom de enfado – não dá a mínima para a teoria a ser elaborada)

Luciano: Então, (o isqueiro falha três vezes, mas consegue acender um cigarro, enquanto barulhos de carro quase batendo podem se ouvir na esquina) ‘A’ é vogal de menina e ‘O’ vogal de menino. Mas acontece que a maior parte das mulheres que passaram pela minha vida tem a vogal ‘I’ como tônica. E quase sempre rola uma sílaba ‘LI’. Como você, por exemplo, Líria. Não é engraçado?

Líria: Não. É uma coincidência besta, como outra qualquer.

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(risadas em crescendo – Luciano olha para a câmera, visivelmente incomodado)

Luciano: É, pode ser uma coincidência besta, mas sabe, eu ando confundindo vocês. O nome, os momentos, os quartos… Mais que tudo, eu ando confundindo os quartos. Você sabe que eu nunca levo mulher em casa, então quase sempre eu conheço o quarto da menina que eu to ficando. Algumas vezes eu to com a consciência alterada enquanto estou lá. E o quarto é um ambiente muito intimo.

Líria: (concentrada, acessa um site qualquer da internet, enquanto conversa em várias janelas do MSN) Ahã, claro, pode continuar.

Nesse momento, passos lentos e desconexos arrastam-se na escada. Farfalhar de trapos. Bate devagar na porta. Tap. Tap. Tap.

Luciano: Esperando alguém?

Líria: Nem tô. Deve ser algum vizinho bêbado qualquer, se tocar a campainha, cê olhá lá pra mim quem é, ok?

Luciano: Claro (arqueia a sobrancelha e tenta recuperar sua linha de raciocínio) Eu ia dizendo, que ando confundindo vocês. Falo isso sem sacanagem. Pelo contrario, até me dá medo. Eu amo muito cada uma de vocês, moças com ‘I’, enquanto estamos juntos. Mas as vezes tenho a impressão que estou numa casa longa, entrando em cada porta – que leva ao quarto de cada uma. Entende?

Líria: Sei lá Lu, papo besta.

(celular toca na platéia)

Voz gutural se faz notar na porta do apartamento. Os tapas e arranhões na madeira intensificam. O ente produtor desses sons e atos urra, como se sentisse um vácuo impossível de preenchimento.

Líria: (se espreguiça, fecha todos os programas do PC e liga o ITunes. Começa a tocar ‘Paisagem da Janela’) Lú, vai ver quem é na porta pra mim, por favor.

Olympia, 1947

Luciano saí do cômodo, cara de aborrecido. Joga o maço em cima da cama. Líria impassível não lhe concede um olhar. Câmera fixa em tripé acompanha a ação no quarto, donde Luciano se ausenta por alguns instantes. No meio tempo, Líria se volta ao espelho, enamorada de si mesma, brinca com seus cachos. Passado um instante, Luciano retorna acompanhado de um zumbi.

Líria: Que fedor! Que merda é essa lu?

Putrefato e estático, o morto-vivo mira o interior do recinto. Nacos de carne escorrem-lhe pela boca. Geme, em agonia, em fome.

Luciano: Essa porra é um zumbi Líria! E eu me pergunto que merda isso tava fazendo esmurrando sua porta, em alta madrugada?

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FIM DA PARTE 1

~ por cafasorridente em outubro 1, 2009.

2 Respostas to “Líria – Parte 1”

  1. hauhuauauhahu…Agora to curioso pra saber q merda isso tava fazendo esmurrando a porta da Líria de madrugada!
    Abraço

  2. OU, adorei isso!!
    que história ótima.
    =)

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