Líria – Segunda Parte

Então, agora estou de volta ao quarto. O zumbi já foi embora.

– É a última vez Luciano. Você entende? Última vez que a gente transa.

Líria me fala isso olhando fixamente para meus olhos. Os seus tem uma linda coloração que oscila entre o verde e o amarelo. Desnecessariamente aponta o dedo para meu rosto. Toda a coisa tem um tom de ameaça. Eu só penso em como seus seios são duros, e como os desejo senti-los junto a mim.

– Ok. Última vez Líria. Sem problema. Dá pra continuar a viver assim. Só acho meio anticlimático você falar isso agora…

– É só pra você saber. Acho importante que você saiba. É a ultima vez.

Sinto-me automaticamente impotente. Queria acender um cigarro antes de começarmos. Mas acho difícil que Líria aceite essa pausa. Penso que se é a última vez, devo fazer a melhor apresentação da minha vida. Memorável. Mas não sei lidar bem a pressão.

– Ai, para Lu. Você tá muito afoito. Parece um adolescente. Que que tá pegando?

Líria não sabe, mas minha cabeça está longe dali. Mui longe. Penso que não estou sendo afoito. Estou sendo voluptuoso. Isso costumava agradar as moças.

(escrevendo sobre isso, com o distanciamento que o tempo impõe… Tudo muito estranho).

Nelson R. senta na cama. Sendo um escritor morto em 1980 (e meu irmão d´alma) ele é em preto-e-branco. Se bem que toda a atmosfera do quarto está escura.

– Luciano, acho que você devia ir pra casa (acendo um de seus indefectíveis mata-ratos). Na realidade, eu não existo. Disso você sabe, sou só uma representação literária da sua esquizofrenia dormente. Aquele que você queria dialogar, nos muitos momentos em que duvida. Nas muitas horas em que acha que nenhum ser vivo vai te entender. Mas como estamos numa página de ficção, eu posso te aconselhar. Vai embora daqui.

– Nelson, agora não. Dá-me um trago e vai embora (falo isso durante a cópula. Vez em quando percebo um tom de enfado nos lindos olhos de Líria).

– Luciano. Escuta. É importante que você me escute. Você sabe que eu assisti a morte do meu irmão Roberto. Assassinado. Lembra aquela vez em que você sonhou que eu estava ao seu lado, materialmente físico? Então. Naquele sonho eu te contei isso. A morte de Roberto me marcou eternamente. Ver ele baleado, como um cão sarnento… Essas coisas ficam pra sempre.

– Porra Nelson, eu to transando velho! Saí fora. Para de falar em morte, cacete! Tu é mórbido pacas!

– Claro que eu sou mórbido. Você já leu tudo que eu escrevi. Sempre acaba em desgraça. Mas escuta, acho melhor você ir pra casa, e…

-Puta merda! SAI FORA!

Sinto o jorro dormente dentro de meu órgão do sexo, prestes a eclodir. Com um pré medo da vergonha, do medo de decepcionar Líria, o seguro inutilmente.

– Não, pelo amor de Deus, agora não.

– Hahahaha.

Líria solta aquela sua risada sonora, de encher o ambiente. Dá-me um beijo carinhoso.

– É Luciano. Essa sua última vez foi rápida hein?  Pelo menos foi bom pra você?

Paralisado de prazer, simplesmente fico de bruços, e enfio minha cara no travesseiro de Líria. Lembro-me com ternura nostálgica que algumas das meninas da minha vida, sempre elogiavam meu cheiro, que ficava presente em suas roupas de cama. Mesmo depois que eu já era lembrança, há muito tempo.

Peço desculpas a Líria. Ela não entende que seu nome remete a muita coisa. Que ela é ela (e a amei por um momento), e que ela é todas. Vejo-a andar pelo quarto, nua. É muito bela. É bonita pra caralho. Iria vê-la cerca de três dias depois. Quando as coisas estariam muito diferentes. Foi um encontro fortuito, daqueles com a câmera pegando a gente do outro lado da rua, que nem naquele filme do Woody Allen. Indicando que a intimidade (tão rápida!) já havia morrido. Porém, enquanto eu descia as escadas eu tinha certeza que não há veria mais.

Chego ao carro. Cato os bolsos em busca do meu maço. Lembro que o esqueci em cima do criado-mudo do quarto de Líria. Nunca que eu subiria novamente. Peço um dos mata-ratos de Nelson R.

– Porra Nelson, você foi me aparecer no momento mais foda né? Precisava? Hein? Logo que? Logo que?

(aspira profundamente o cigarro. Nenhum homem vivo ou morto já sentiu regojizo igual ao fumar um cigarro).


– Então Lu. Eu to aqui pra ajudar a conduzir essas suas lembranças. Esse negócio de usar um poeta morto pra acompanhar o protagonista é artifício velho. O Dante já usou com o Virgilio, lá no Inferno dele, há mais de quatrocentos anos.

– O que você quer dizer?

– Que a gente deve acender essa beata que você tem no porta luvas, e irmos pra casa. Num próximo capitulo dessa história, nós vamos ter uma nova conversa no Rio, onde deixamos o Fábio e o Carlos Drummond. Mas por enquanto temos que ir pra casa. É lá que está acontecendo a crise que vai motivar a escrita desse texto, daqui um mês.

Nelson acende o baseado. Dá um trago, e me passa a bola. Vou dirigindo, atravesso um pequeno trecho de Avenida Amazonas e volto pela Praça da Assembléia. Voltamos mudos, eu e Nelson, já sabendo o que vou encontrar quando chegar em casa.

Paro o Uno no estacionamento. Caminho como para o abate. Nelson já não está do meu lado. Com a cabeça em Líria, não dou atenção para duas mulheres que começam a mexer comigo. Não tenho paciência para falar com elas. Me acham antipático e vão gritando comigo, durante todo o trajeto até minha casa.

O saguão do prédio está escuro. São cerca de duas da manhã. Decido subir de escada. A subirei e descerei várias vezes ainda essa noite.

Chego em casa, minha mãe está no tanque, lavando um pedaço de pano. Reconheço ser uma camisa regata de meu pai.

-Pô mãe, lavando roupa essa hora da madrugada? Vai dormir mãe.

– Dormir como filho? Seu pai ta passando mal. Seu pai ta passando mal.

(continua…)

~ por cafasorridente em novembro 20, 2009.

Uma resposta to “Líria – Segunda Parte”

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