Pensei que um dia eu ia te deixar, te deixar pra trás – Parte 1

ESTA NA HORÁ DE DESENHAR UMA CURVA RUMO A ANTIMELANCOLIA.

Trabalhavam frente á frente. O rapaz no escritório, a velhinha na banca de jornal. Ele, um latagão – com peitoral de havaiano de filme, bronzeado como um surfista carioca. De uma saúde e opulência ofensiva aos franzinos do mundo. Ela, uma senhora com seus sessenta e tantos. Com a antipatia gerada pelas décadas de decepção e desamor.

E não sei por que razão, aquele homem (que chamava Astolfo) que poderia escolher a mulher que quisesse, encantou-se pela muchibenta vovó. Nem para dizer, ‘é uma senhorinha ajeitada’ ou ‘ela é inteligente e simpática’ ou ainda ‘lembra um carinho de Vó Benta’. Nada disso – a velhota era uma bruxa.  Nata e hereditária.

E Adélia (chamava Adélia, nome de irmã ou de antepassada) começou a estranhar a presença sempre presente de Astolfo. Comprava paçoca, debatia o conteúdo dos jornais diários, se interessava por livros de bolso do Kardecismo… Como última alternativa a febril necessidade de estar perto de Adélia, deu pra fumar – simplesmente para ir buscar um ‘picado’ na banca. Ia dez vezes por dia, falava ‘Dona Adélia, vê um Hollywood?’ E ela: ‘Compra um maço na padaria, porra! Deixa de amolar!’

Confidenciava com os amigos: ‘Essa mulher me mata! Essa ainda me enlouquece! Me trata feito merda. Me ignora sistematicamente! Eu sou homem e não admito. Ainda meto uma bala nessa cara!’ Perguntavam: – de quem você tá falando Astolfo? É da gostosinha do 803? É da boqueteira que faz Fisioterapia? É aquela ex-namorada que te trocou por aquele truta espanhol?’

Morto de vergonha, Astolfo admitia:

– É da velhinha que tem uma banca de jornal. Na porta do meu serviço. Merda de vida.

O mundo irrompia em risadas. E aquilo, que começou como um capricho, uma vontade sem vinculo com a realidade, passou a tomar a vida de Astolfo de assalto. Uma obsessão que dominava sua cabeça, noite e dia. Guardava os pequenos gestos, os pequenos olhares de Adélia durante o longo intervalo que era sua noite mal dormida. Acordava ressaqueado. Deu pra chegar tarde em casa, fedendo a uísque barato e perfume de damas da noite.

Sua mãe, pobre viúva, cardíaca e solitária, entrava em pânico diante da auto-destruição daquele filho único, tão amado e mimado.

– Quem é a sirigaita filho? Quem é essa vaca que ta fodendo com sua vida? Mulher é mato meu filho. Mulher é mato!

– Me deixa mãe. Me deixa! Mulher chata!

Estava decidido a declarar-se naquela manhã para Adélia. Qualquer que fosse o resultado, pelo menos iria se livrar daquela loucura inefável que lhe dominava. Vestiu seu melhor sorriso, penteou o bigode, se perfumou de loção pós-barba e foi.

A propósito de puxar assunto, ia pedir o isqueiro para Adélia (que ficava em cima do Jornal Super). Encontrou-a de vestido lilás, óculos preso com cordinha na orelha, e uma cara de mau-humor que até hoje não foi superada na história da raça humana.

-Adélia, te amo, não posso viver sem ti. To pirando. Pirando. Preciso de você pra ontem. Não me repudia, por que não posso conviver com essa repulsa. Posso te fazer feliz mais do que você pode sonhar.

E falou assim mesmo, de supetão. Pensou que o susto ia ser a melhor forma de conquistar a idosa comerciante de jornais. Essa, porém, arqueia a sobrancelha, e devota o seu melhor desprezo, que vinha acalentando há décadas (ou posso dizer, séculos?)

– Vá pra puta que pariu, muleque nojento.

Indo embora, lágrimas escorrendo, derramando, berrando… Astolfo se decide:

– Se não é para ser minha, essa vacona não vai ser de ninguém. Acabar com a vida dessa mulher. Vou acabar com a vida dela.

E mordendo as palavras, como se elas pudesse escapar, morde os próprios beiços, com apaixonada violência.

– Essa velha merece um crime sexual!


(continua……)

~ por cafasorridente em novembro 23, 2009.

4 Respostas to “Pensei que um dia eu ia te deixar, te deixar pra trás – Parte 1”

  1. Sem palavras, muito bom…

    vi isso e lembrei de alguém:
    http://szymon.tumblr.com/post/239347542/a-lighter-or-a-spoon-by-goranda

  2. Kkkkk. Adorei. To doida pra ler o final.

  3. tô gostando desse trem.

  4. muito legal as imagens

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