Líria – Momento 3

(nota: para pleno entendimento – favor entender que quando me refiro a Líria, eu me refiro a três mulheres diferentes. A perceber> Sandra, Líria X. e Kátia Flávia)

Estou tendo um acidente de carro na Avenida Nossa Senhora do Carmo. Ao meu lado, Jorge tem medo. Muito vidro em todos nós. Impassível, Nelson continua tragando avidamente seu cigarro (um mato-rato). Fechei imprudentemente um Siena à minha direita. Ônibus da linha 2101 arremessa 32 toneladas de aço contra minha porta de motorista. No som do carro, toca ‘Axis – Bold as Love’ como em todo acidente que eu participo.

***

Fast Rewind em seis meses (quarto de Sandra) – Estou novamente (o cenário é sempre o mesmo) num quarto feminino. Mural de fotos, sorrisos, objetos pessoais. Tá na minha cabeça a música do Gil – ‘Objeto sim, Objeto não’. Deitada na cama, Sandra força um cara corajosa, de enfrentamento. Como se me desafiasse. Imagino que ela esta repassando internamente toda a série de coisas que sei que ela passou a ultima semana se convencendo.

Começo a conversa. Entendo que meu poder de lábia ainda exerce sua função sobre ela. Porém, nem todo meu xororô será capaz de me tirar da situação que me encontro.

***

Fast Forward em seis meses (dia do acidente) Mero recurso estilístico para me tirar do momento constrangedor no quarto de Sandra. Vamos ao acidente citado no primeiro parágrafo Alias, vamos a manhã desse dia. Acordo empapado em suor. Pesadelos de costume. Todavia, não eu não acordei empapado em suor. Esse é apenas clichê de “acordando de um pesadelo”.

Outrossim, vamos a descrição desse meu pesadelo: Recorrentemente estou tenho sonhos cujos enredos variam, porém com o constante fato de que neles, eu sou caolho e uso um misterioso tapa-olho, sempre em meu olho esquerdo. Pesquisei sobre o significado. Descobri qualquer bobagem sobre luz e sabedoria, e que se eu estava sonhando com olhos, era uma boa fazer uma fezinha na cobra. Jogo do bicho é o caminho.

Líria X. não deu muita bola a esse meu papo sobre sonhos. Luciano, onirismo é coisa que você cria, nessa sua sanha de não viver a realidade. Sempre obcecado em romantizar e ver teatro em tudo”. Ela tem bem razão, já me sacou. Mais que tudo, ela sacou rapidamente meus jogos de insegurança, e como isso motiva minhas covardes atitudes. Tem o costume de enredar um pequeno sorriso, de canto de boca – quando eu estou aprontando algum papel de vitima. Contudo, mesmo tendo me entendido e sacado que eu sou “full of shit” (como dizem os americaners) – Líria X. me acompanha desde meu termino com Sandra.

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Sobre Líria X.

Líria X. é pequena, usa cabelo em coque e termina toda oração com uma arqueada na sobrancelha direita. Usa esse artifício para ativar sua já arguta inteligência. No dia de meu acidente de carro, Líria X. me tratou com um desdém e impaciência impares. Creio que ela se arrependerá disse ao fim do dia.

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Fast Rewind em seis meses (quarto de Sandra) Estamos fazendo amor, Sandra e eu. Fico muito emocionado, é uma relação de choro e foda. Bem lírica, assenta bem ao meu gosto. Meus olhos passeiam pelo quarto, recaem em uma lâmpada dessas, cujo interior tem um liquido gelatinoso. Que vai se movendo e tecendo novas formas. Qual numa acid trip, começo a derreter, derreter… Minha garganta pede um copo d’água e meus olhos pedem seu olhar. Arfando – arfando, o ar vai me faltando. Só mais um pouco, quase lá. Essa sede pode me matar. Gotas de choro caem no meu peito. Tudo que eu queria era acender um cigarro. Quase lá. Quase. Gozo. Fim. Melancolia.

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Fast Forward em seis meses (tarde do dia do acidente)Novamente no dia do acidente. Recebo ligação telefônica. Ainda estou confuso quanto ao meu sonho. Herdei de minha mãe. Essa capacidade. Ele sempre foi senhora de tristes e amargos augúrios. A vida toda, em sobressalto eu dava piques na cama, chutes e espasmos enquanto dormia. Na noite citada, sonhei que perdia meu olho esquerdo. Mordido e arrancado por um quadro de Jesus. Não atendi ao telefone. Ainda estava desconcertado graças ao sonho.

***

Fast Rewind em seis meses (quarto de Sandra) Logo após terminarmos, Sandra e eu ficamos calados e abraçados. Tenho a consciência que essa não é nem de longe a última vez que nos veremos. Porém, a amargura da ‘ultima vez’ dói-me alhures. Tento decorar cada dobra e curva de seu corpo. Após cada beijo, eu fecho os olhos e fico com a boca aberta – sentindo o gosto da saliva. Esse gosto que já secou.

***

Fast Forward em seis meses (tarde do dia do acidente) – “Sou tímido espalhafatoso, Torre traçada por Gaudi, São Paulo é como o mundo todo – no mundo um grande amor perdi” – diz a SMS que recebi. Assim como a chamada não atendida, o número remetente é confidencial. Noto ao sair do banho que o céu está com um tom azulado, mais pendente pro roxo. Nalguns momentos, ele fica extremamente cinza, chuvoso. Essa visão me lembra com clareza minha terra natal. Dá uma sensação de volta para casa.

Já me é claro que o dia de hoje me será significativo. Desde a véspera eu penso desesperadamente em Sandra. Assista uma propaganda de TV que me lembrou dela. A perda continua doendo. Sandra. Se personificou noutra. Acendo um Carlton. Queria tanto fumar Hollywood vermelho – cigarro que papai sempre me pedia pra comprar na padaria! Ai como dói saudades. Como dói.

Não tenho hábito de fumar antes de almoçar. Imediatamente Nelson R. com seu surrado terno da década de 40 acende meu cigarro. Presença de Nelson R. sempre me assusta.

– Olá Nelson. Tú aparecer por aqui não é bom indicio.

– Meu bom Luciano. Não tens saudades de amigo? Não sofres querendo conversar? Que mal há? Hein? Que mal há? Vim te ver. Não tinhas saudade do irmão d’alma?

Todo movimento de Nelson R. é de certa forma robótico. Não, não robótico. É como se fosse um manequim orientado por um títere invisível. Independente disso, todo seu corpo é realista – a exceção de ele existir em preto e branco.

– Problema algum tu aparecer. Alias, estou bem precisado de conselhos. Amorosos. Sabe?

– Cada pessoa nasce com uma estrela. Minha filha nasceu sem nenhuma. Mas toda pessoa nasce com estrela. A sua é a da tragédia, a da morbidez. Inclusive é por isso que somos amigos. Não é? Não somos amigos? Pois bem. Amigos. E você sempre com essa sanha de mulher né? É pra espantar a morte né?

Algo parece errado com Nelson R. Sua muito. Parece febril. Seu olho esquerdo treme, em frêmitos incontroláveis – me parecem sintomas de um pequeno derrame.

***

Fast Rewind em seis meses (quarto de Sandra)Sandra está se vestindo. Nesse momento surge a terceira mulher do conto. Porém, ao contrário das outras – e pela sua função metafórica, Kátia Flavia nunca tem papel ativo na ação.

– Lu, você sabes o porquê eu concluo que realmente não vai ser possível? Sabe não sabe? Nós ficarmos juntos? Sabe não?

Internamente eu revisito os motivos que ela pode citar.  Na realidade, eu nem sei se a pergunta dela é retórica, ou se espera uma resposta.

– Poxa Sandra. Sei não. Acho que já conversamos tanto sobre tudo…

Ela me interrompe, engasga um choro.

– Não Lu, to te perguntando sobre a gota d’água.

– Não Sandra. Não sei qual foi a gota d’água. Qual foi a gota d’água?

– To sabendo que procuras Kátia Flavia. Todas as Kátias Flavias. Isso é papel? De homem comprometido? Isso ainda depois de ficar com outra Kátia Flávia naquela sua viagem. Isso é papel?

Não intencionalmente, e para uma saudável quebra de tensão – Sandra rebenta em soluços. Vai assoar o nariz no toilete. Aproveito o respiro para ler a mensagem que recebi no celular “Enquanto o tempo não trouxer teu abacate –
Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão
” Rio sozinho. Sandra volta ao quarto.

***

Fast Forward em seis meses (tarde do dia do acidente) – Me sentindo solitário e entediado ligo para Líria X. O curioso é que com ela, mesmo após esses vários meses, não há garantia que ela vá atender. Ou mesmo retornar a ligação. Deve ter a ver como nosso pacto de não-namoro, cunhado logo no inicio de nossa relação.

Telefone chamando. Ao meu lado Nelson R. acende um cigarro com a bituca do que fuma. Cantarola com sua voz de bêbado Chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar, e se perder e se achar e tudo aquilo que é viver…”

– Líria X, tudo bom? (gosto de falar o nome de Líria X. ao todo, e não usar o apelido com que as pessoas costumam chamá-la).

Oi Cafa. Bom demais. (Já Líiria X. não me concede a graça de me chamar pelo nome. Jamais. É como se quisesse manter uma barreira de anti intimidade).

– Bom, eu queria…

Líria X. me interrompe.

– Olha agora eu não posso falar. To preparando umas coisas, vou viajar hoje.

– Como assim? Viajar pra onde? Vai passar muito tempo fora? Como assim porra?

– Então Cafa, agora eu realmente não posso falar, te ligo – beijo. Xau.

Estancamos Nelson R. e eu. Peço-lhe o isqueiro. Tem uma caixa de fósforos. Pronto. Agora só faltam cinco mil cigarros para eu ter meu próprio enfisema. Nervoso. Tusso, tusso. Sangue na mão. De repente, sinto como se desatarraxa-se meu olho esquerdo. Vai caindo, escorregando pelo chão. Caindo… caindo…

***

Que noite mais funda calunga! – Que viagem mais longa candonga – Epa raio, machado, trovão
Epa justiça de guerreiro

(continua…)

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~ por cafasorridente em agosto 25, 2010.

2 Respostas to “Líria – Momento 3”

  1. very nice writing my friend.
    hetero-cronicidades anacro-panistas (huahuahua)
    um abraço seu luciano

  2. aguardando o momento liria final, vc não é um autor confiável…

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