Adelaide – Parte 3

Gustave_Courbet_auto-retrato

Mingau latia latia latia. O rottweiler também está velho. Us treze anos. No aniversário de dois anos de Ana, Rani cometeu outra daquelas mentiras estapafúrdias. Comprou um rottweiler dizendo que era um presente para a menina. Ana mal andava. Concatenava as palavras com extrema confusão. Cínico Rani deu para a filha um rottweiler. Repito. Um rottweiller. Júlia (mâe de Ana) deu escândalo.

–        Rani. Você é muito babaca. Sabe que rotteiller não se dá com criança.

–        Porra Júlia. Que que tem? Você adora cachorro. O cachorrinho é lindo. Tadinho. Tão pequenino. Quem faz o cachorro é o dono. E eu sempre quis ter um rott pra mim.

–        Justamente. Você sempre quis ter um rott. O cachorro é seu. Não vem achar que vai conseguir empurrar esse monstro pra minha filha.

–        Mas é que eu esperava que você fosse meu ajudar a criá-lo. Sendo que você tem quintal em casa. Pode ser?

–        Tá de foda comigo Rani? Quem pariu Matheus que o embale. Você que vai ficar com esse cachorro. Você que cuide dele. Entendeu? Você.

–        Eu?

–        É. Você. E como você vai chamar essa besta fera?

–        Mingau.

–        Mingau? Um rottweiler com nome de Mingau?

–        Queria que eu chamasse ele de ‘Tinhoso’? ‘Coisa ruim’? ‘Exu tranca perna’?

–        Sei lá. Eu tinha pensando em Max… Como naquele filme. ‘Max – Fidelidade Assassina’. Lembra?

–        Mingau. Será Mingau e pronto.

Enquanto corria a conversa, Ana beijava o cachorro na boca. Abraçava-o. Mingau, muito feliz, muito satisfeito dava a barriguinha para carinho. Tão bonito o cachorro. Tão carinhoso.

rotweiller-filhotes

 *****************

            Mas Mingau já estava bem velhinho. Joba, o vira-latas de sua mãe morrerá com dezessete anos, neurastênico no fim da vida. Na ocasião Rani quis ir junto para a descanso eterno. Cerrou-se em profundo pranto. Joba era o ser vivo que mais o amou em toda a vida. E Rani (egoísta que só) não lhe dava a devida atenção. Inclusive, Joba nunca o perdoou por ter adotado outro cachorro – “aquele rottweiler safado” – parecia dizer com o olhar.

Mingau convivia com problemas pulmonares desde filhote. Na realidade foi único sobrevivente de uma ninhada difícil. Parto complicado ficou muitos segundos sem respirar, logo que nascido. Por motivos veterinários bem complexos (e que não vem ao caso) disso redundou a respiração sofrida do enorme cão. Faziam um par engraçado, aquele bigodudo cardíaco e asmático, puxando o pesado canino, que cansava depois da menor caminhada.

E agora, com treze primaveras decorridas, Mingau já acumulava muita remela. Os dentes não tinham mais a potência do passado. O pelo apresentava falhas, aqui e acolá. Rani chorava abraçado com seu cachorro, companheiro problemático de tantas ocasiões. Forte, maciço, o canino deitava com seu dono. Arfava pesado.

Ana abre a porta do quarto.

–        Pai preciso de dinheiro.

–        Porra filha. Some da minha frente. To aqui com Mingau. Ele não tá legal hoje. Deixa a gente em paz.

–        Desculpa, é que eu vou sair hoje.

–        Deixa eu adivinhar. Sair com a Adelaide, certo?

–        É. Com a Adelaide sim. Por que?

Sentia raiva, muita raiva da juventude da filha. Da juventude de Adelaide. E ele e o companheiro, refugos de um tempo antigo. Dois asmáticos. Lembrava do pai morrendo sem ar. E a filha querendo dinheiro para sair. Já tinha peitos a menina. Lindos seios, alias. Mas não como os de Adelaide. Aquilo sim, formavam um belo par de peitos. Duros. E pequenos. Pequenos e redondinhos. Não começavam logo abaixo dos ombros, como certas mocinhas por aí. Simplesmente brotavam, apontando para o infinito. Que peitinhos.

Pensou nos moleques imundos, espinhentos, sebosos, que em breve comeriam a filha. E a Adelaide. Provavelmente comeriam as duas juntas. Enxergou com clareza, as duas chupando um garoto imbecil qualquer. E um jato, enorme, viscoso de porra a descer pelo colo de Adelaide. Agora confundia as duas. Onde começava Ana, onde terminava Adelaide?

Chorava com raiva. Nem percebia mas chorava. Gritava com a filha, jogou o cachorro no chão, pisou-lhe na pata. Mingau gania.

Empurra a adolescente. Tranca o quarto, e se abraça ao pobre animal.

–        O mundo tá acabando Mingau. O mundo tá acabando Mingau. Nosso mundo tá acabando. Mas a gente vai embora juntos. 

gustave-dore-les-saltimbanques-1874

~ por cafasorridente em agosto 22, 2013.

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