Adelaide – Parte 4

some-pig-Painting-by-Heidi-Taillefer

Acordou assustado. Coração batia muito rápido. Lembrou da sensação do ataque cardíaco. Um sentimento de esvaziamento de si. Tinha a dor que começava no braço esquerdo e ia tomando todo o corpo. Foi horrível o ataque. Mas sobreviveu. Médico recomendou: “Pare com o porco Rani. Pare de comer porco. Simples assim. Para com essa obsessão pela carne suína.”

Mais uma verdade sobre Rani Guerneta: Adorava carne de porco. Na ordem, seu modo preferido de consumi-lo, eram:

1 salame

2 joelho

3 presunto

4 mortadela

5 peperoni

6 bacon

7 linguiça

8 feijoada

9 lombo

10 pernil

Era o anti islâmico, o anti judeu, o anti adventista. Adorava a carne de porco, e via em sua sanha pelo Eisben (como é chamado o joelho no preparo alemão) um gesto político. Uma atitude de ateísmo praticante. “Como uma religião pode permitir a poligamia e impedir o homem de comer um inocente pão de queijo com linguiça?”

De toda maneira, isso não importa. Importa é que Rani acordou assustado. Coração batendo rápido, muito rápido. Tinha tido um pesadelo, não? Tinha, devia ser isso. No sonho carregava o peso de ser arauto dum destino ruim para todo o planeta. Tinha pés de bode no sonho, e atraía moscas consigo. Mesmo sua carga sendo pesada, avisava, um a um, aos habitantes do planeta: “Olha, a Terra vai ficar escura. Eu venho aqui te avisar que a Terra vai ficar escura”.

Despertou justamente no seu quarto, tão escuro. Inerte, Mingau roncava ao lado. Tentando identificar as formas dos objetos na penumbra olhou para o cabideiro. Os chapéus dispostos de qualquer jeito, faziam o contorno de um homem de muitas cabeças. Porém, já  grandinho, sabia que essa era ilusão antiga, um cabideiro é um cabideiro, da mesma forma que um cachimbo é só um cachimbo.

Deixa o cão dormindo e caminha pela casa. Ninguém em nenhum cômodo. Onde Ana estava? Lembrava que a menina tinha lhe dito algo. Ia sair? Na casa da mãe ele não está? Está? Não, Júlia está no nordeste. Natal é no nordeste, certo? O sono o deixava burro, e ficava lembrando-se do sonho de porco, das moscas. Estava sujo? Não fedia, mas a dobra de pele na barriga suava.

Paula Rego

Lembrou. A filha tinha saído com a outra. Adelaide. Delícia de menina. Não tinha visto que horas elas tinham saído. Pra onde elas teriam ido? Que noite cansativa. Que acumulo de interrogações.

Na cozinha, começa a preparar seu kit absurdo alimento / alcoólico para começar a acordar. Relógio marca uma da manhã. Vai tomar seu tradicional chá de camomila, e preparar o refogado de tomate com bacon. Enquanto isso, senta a cara na cerveja. Alias, hoje é sábado, dia de caipirinha.

Telefona para Falafael, amigo de longa data:

–        Oi quibão. Como vai essa força. Tentando arrumar uma foda? Noite de sábado é noite de foda.

–        Estava dormindo.

–        Anima de ir comer um joelho de porco?

–        Joelho de porco? Essa hora?

–        Hoje é sábado. Dia perfeito para comer porco. É praticamente uma afronta. Ingerir gordura no meio da madrugada é um gesto social.

–        É um gesto rumo a outro ataque do coração.

–        Não vai animar?

–        Não. E tecnicamente agora já é domingo. Então, seu gesto está atrasado.

Entre a segunda e a quarta caipirinha começa a preocupar com a filha. Já era três da manhã, e decide ligar para a menina. Mingau estava dormindo (e como dorme esse cachorro) em seu colo, e foi um desafio levantar para pegar o telefone.

(tu tu tu)

–        Porra filha, e atender essa merda de telefone que eu te pago, você não atende?

(caixa de mensagem tu tu tu)

Lagos40_kopie (1)

~ por cafasorridente em agosto 26, 2013.

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