Adelaide – Parte 5

•setembro 3, 2013 • 1 Comentário

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Depois da quinta capirinha, pega Mingau e saí com ele na D-20. Insiste em telefonar para Ana há vários minutos. E antes de sair de casa, fuçou (tropego e bêbado) no computador da filha. Mexeu em anotações. Acha que sabe onde é a festa para onde a garota foi com a Adelaide.

Na juventude (não que fosse um velho), tinha o habito de perseguições. Ia com o carro, devagarinho, onde imaginava que fosse encontrar uma ex namorada. Quase chegava as vias de fato, de esmurrar. Mas a compleição física frágil sempre impediu qualquer ato agressivo. Morria de medo de apanhar.  Então, se saciava com o uso da violência psicológica. Saltos de humor, gritos e ameaças costumavam ser suficientes para engendrar traquitanas e malandrices sobre a pessoa amada.

Fedendo a álcool, acelera a caminhonete ano 96 (que por sua vez fedia a diesel). Mingau, muito preguiçoso se espreguiça no banco do veículo. Após uma curva mal feita, em que sobe ligeiramente sobre o meio fio, dá de cara com uma blitz da lei-seca. Puta merda. Fudeu.

  ******************

–        O senhor já deve saber o riscado né?

–        Hã?

–        Isso do seu lado é um cachorro?

–        É. Mas é bem velhinho.

–        Mas é um cachorro enorme. Não pode andar no banco da frente.

–        O oficial me desculpe, mas meu carro não tem banco de trás.

–        Quero dizer, que raça é essa? Bem,  esse cachorro não pode andar sem estar na caixinha.

–        Meu querido policial. Isso aqui é um rotweiller de doze anos. Ou treze. Bem, ele é velho, e pesa mais de cinquenta quilos. Não tem caixinha que caiba esse danado desse bicho.

(enquanto o debate sobre Mingau decorre, Rani enfia três trident de morango na boca, para disfarçar o bafo de caipirinha)

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–        Bem, me veja os documentos aí. Os seus e o do carro.

–        Estão aqui.

(o policial passa a lanterna pelo carro. Encontra uma bananga).

–        Seu Rani. Você fuma maconha? Isso aqui é uma ponta de cigarro de marijuana.

(morre de rir {internamente} do termo usado pelo policial para se referir ao baseado)

–        Olha seu guarda. Não vou mentir para você. Isso é maconha sim. Tenho vários amigos puxa-fumo. Mas pessoalmente eu não estou envolvido com psicotrópico há muitos anos. Sou mais da cervejinha.

–        Então o senhor bebeu. Por isso que fez essa curva subindo o meio-fio?

–        Não. Isso foi o meu cachorro pulando em cima de mim.

–        Porra, mas então esse cachorro não pode ficar pulando no seu colo. É um perigo.

–        Não, na realidade…

–        Meu amigo. Você tá chapado, com um rotweiller no banco de passageiro e com maconha no veículo.

–        Eu não to chapado.

–        Não tá chapado?

–        Não.

–        Então eu posso te pedir para soprar o bafômetro.

–        Claro.

–        Posso?

–        Pode.

–        Então vem acá.

–        Olha major.

–        Soldado.

–        Pois bem. Soldado. Eu adoraria soprar o bafômetro. Nada me daria mais prazer do que soprar esse bafômetro agora. Mas estou envolvido numa questão urgente.

–        É mesmo?

–        Completamente.

–        E qual é?

–        Estou achando que minha filha foi levada para uma curra.

–        Uma o que?

–        Uma curra. Vão arrombar minha menina.

–        E quantos anos tem sua filha?

–        Dezesseis. Alias. Quinze. Nova.

(para corroborar a tese da curra, Mingau começa a chorar, gania em agonia).

–        Viu? Cachorro sente essas coisas. Olha como o bichinho tá desesperado. Pobrezinho,

(com o celular em punho, Rani mostra uma foto de Ana para o policial e em seguida para Mingau – que começa a uivar loucamente).

–        Capitão, minha filha tá sendo descabaçada enquanto eu estou aqui nesse bate-papo.

–        É soldado.

–        Sim, soldado. Mas com coração de almirante. Quebra essa aqui pro tio!

–        Hurm…

–        Poxa…

–        Hurm…

–        Facilita.

–        Ok…

–        Muito obrigado tenente!

–        Mas o baseado fica…

–        Acho ótimo! Eu não teria outro desejo.

E vai embora, coçando a orelha de Mingau, seu melhor amigo, que suspira e se espreguiça. Engata a segunda, a cachaça já evaporando de sua cabeça. Se sente mais esperto, a adrenalina lhe deixou mais ligado. A lábia sempre foi seu forte. Sente-se capaz de enganar o papa.

Lança um olhar de ternura para o cão. Que responde com uma sonora flatulência. Todo o carro fede.

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Adelaide – Parte 4

•agosto 26, 2013 • Deixe um comentário

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Acordou assustado. Coração batia muito rápido. Lembrou da sensação do ataque cardíaco. Um sentimento de esvaziamento de si. Tinha a dor que começava no braço esquerdo e ia tomando todo o corpo. Foi horrível o ataque. Mas sobreviveu. Médico recomendou: “Pare com o porco Rani. Pare de comer porco. Simples assim. Para com essa obsessão pela carne suína.”

Mais uma verdade sobre Rani Guerneta: Adorava carne de porco. Na ordem, seu modo preferido de consumi-lo, eram:

1 salame

2 joelho

3 presunto

4 mortadela

5 peperoni

6 bacon

7 linguiça

8 feijoada

9 lombo

10 pernil

Era o anti islâmico, o anti judeu, o anti adventista. Adorava a carne de porco, e via em sua sanha pelo Eisben (como é chamado o joelho no preparo alemão) um gesto político. Uma atitude de ateísmo praticante. “Como uma religião pode permitir a poligamia e impedir o homem de comer um inocente pão de queijo com linguiça?”

De toda maneira, isso não importa. Importa é que Rani acordou assustado. Coração batendo rápido, muito rápido. Tinha tido um pesadelo, não? Tinha, devia ser isso. No sonho carregava o peso de ser arauto dum destino ruim para todo o planeta. Tinha pés de bode no sonho, e atraía moscas consigo. Mesmo sua carga sendo pesada, avisava, um a um, aos habitantes do planeta: “Olha, a Terra vai ficar escura. Eu venho aqui te avisar que a Terra vai ficar escura”.

Despertou justamente no seu quarto, tão escuro. Inerte, Mingau roncava ao lado. Tentando identificar as formas dos objetos na penumbra olhou para o cabideiro. Os chapéus dispostos de qualquer jeito, faziam o contorno de um homem de muitas cabeças. Porém, já  grandinho, sabia que essa era ilusão antiga, um cabideiro é um cabideiro, da mesma forma que um cachimbo é só um cachimbo.

Deixa o cão dormindo e caminha pela casa. Ninguém em nenhum cômodo. Onde Ana estava? Lembrava que a menina tinha lhe dito algo. Ia sair? Na casa da mãe ele não está? Está? Não, Júlia está no nordeste. Natal é no nordeste, certo? O sono o deixava burro, e ficava lembrando-se do sonho de porco, das moscas. Estava sujo? Não fedia, mas a dobra de pele na barriga suava.

Paula Rego

Lembrou. A filha tinha saído com a outra. Adelaide. Delícia de menina. Não tinha visto que horas elas tinham saído. Pra onde elas teriam ido? Que noite cansativa. Que acumulo de interrogações.

Na cozinha, começa a preparar seu kit absurdo alimento / alcoólico para começar a acordar. Relógio marca uma da manhã. Vai tomar seu tradicional chá de camomila, e preparar o refogado de tomate com bacon. Enquanto isso, senta a cara na cerveja. Alias, hoje é sábado, dia de caipirinha.

Telefona para Falafael, amigo de longa data:

–        Oi quibão. Como vai essa força. Tentando arrumar uma foda? Noite de sábado é noite de foda.

–        Estava dormindo.

–        Anima de ir comer um joelho de porco?

–        Joelho de porco? Essa hora?

–        Hoje é sábado. Dia perfeito para comer porco. É praticamente uma afronta. Ingerir gordura no meio da madrugada é um gesto social.

–        É um gesto rumo a outro ataque do coração.

–        Não vai animar?

–        Não. E tecnicamente agora já é domingo. Então, seu gesto está atrasado.

Entre a segunda e a quarta caipirinha começa a preocupar com a filha. Já era três da manhã, e decide ligar para a menina. Mingau estava dormindo (e como dorme esse cachorro) em seu colo, e foi um desafio levantar para pegar o telefone.

(tu tu tu)

–        Porra filha, e atender essa merda de telefone que eu te pago, você não atende?

(caixa de mensagem tu tu tu)

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Adelaide – Parte 3

•agosto 22, 2013 • Deixe um comentário

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Mingau latia latia latia. O rottweiler também está velho. Us treze anos. No aniversário de dois anos de Ana, Rani cometeu outra daquelas mentiras estapafúrdias. Comprou um rottweiler dizendo que era um presente para a menina. Ana mal andava. Concatenava as palavras com extrema confusão. Cínico Rani deu para a filha um rottweiler. Repito. Um rottweiller. Júlia (mâe de Ana) deu escândalo.

–        Rani. Você é muito babaca. Sabe que rotteiller não se dá com criança.

–        Porra Júlia. Que que tem? Você adora cachorro. O cachorrinho é lindo. Tadinho. Tão pequenino. Quem faz o cachorro é o dono. E eu sempre quis ter um rott pra mim.

–        Justamente. Você sempre quis ter um rott. O cachorro é seu. Não vem achar que vai conseguir empurrar esse monstro pra minha filha.

–        Mas é que eu esperava que você fosse meu ajudar a criá-lo. Sendo que você tem quintal em casa. Pode ser?

–        Tá de foda comigo Rani? Quem pariu Matheus que o embale. Você que vai ficar com esse cachorro. Você que cuide dele. Entendeu? Você.

–        Eu?

–        É. Você. E como você vai chamar essa besta fera?

–        Mingau.

–        Mingau? Um rottweiler com nome de Mingau?

–        Queria que eu chamasse ele de ‘Tinhoso’? ‘Coisa ruim’? ‘Exu tranca perna’?

–        Sei lá. Eu tinha pensando em Max… Como naquele filme. ‘Max – Fidelidade Assassina’. Lembra?

–        Mingau. Será Mingau e pronto.

Enquanto corria a conversa, Ana beijava o cachorro na boca. Abraçava-o. Mingau, muito feliz, muito satisfeito dava a barriguinha para carinho. Tão bonito o cachorro. Tão carinhoso.

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 *****************

            Mas Mingau já estava bem velhinho. Joba, o vira-latas de sua mãe morrerá com dezessete anos, neurastênico no fim da vida. Na ocasião Rani quis ir junto para a descanso eterno. Cerrou-se em profundo pranto. Joba era o ser vivo que mais o amou em toda a vida. E Rani (egoísta que só) não lhe dava a devida atenção. Inclusive, Joba nunca o perdoou por ter adotado outro cachorro – “aquele rottweiler safado” – parecia dizer com o olhar.

Mingau convivia com problemas pulmonares desde filhote. Na realidade foi único sobrevivente de uma ninhada difícil. Parto complicado ficou muitos segundos sem respirar, logo que nascido. Por motivos veterinários bem complexos (e que não vem ao caso) disso redundou a respiração sofrida do enorme cão. Faziam um par engraçado, aquele bigodudo cardíaco e asmático, puxando o pesado canino, que cansava depois da menor caminhada.

E agora, com treze primaveras decorridas, Mingau já acumulava muita remela. Os dentes não tinham mais a potência do passado. O pelo apresentava falhas, aqui e acolá. Rani chorava abraçado com seu cachorro, companheiro problemático de tantas ocasiões. Forte, maciço, o canino deitava com seu dono. Arfava pesado.

Ana abre a porta do quarto.

–        Pai preciso de dinheiro.

–        Porra filha. Some da minha frente. To aqui com Mingau. Ele não tá legal hoje. Deixa a gente em paz.

–        Desculpa, é que eu vou sair hoje.

–        Deixa eu adivinhar. Sair com a Adelaide, certo?

–        É. Com a Adelaide sim. Por que?

Sentia raiva, muita raiva da juventude da filha. Da juventude de Adelaide. E ele e o companheiro, refugos de um tempo antigo. Dois asmáticos. Lembrava do pai morrendo sem ar. E a filha querendo dinheiro para sair. Já tinha peitos a menina. Lindos seios, alias. Mas não como os de Adelaide. Aquilo sim, formavam um belo par de peitos. Duros. E pequenos. Pequenos e redondinhos. Não começavam logo abaixo dos ombros, como certas mocinhas por aí. Simplesmente brotavam, apontando para o infinito. Que peitinhos.

Pensou nos moleques imundos, espinhentos, sebosos, que em breve comeriam a filha. E a Adelaide. Provavelmente comeriam as duas juntas. Enxergou com clareza, as duas chupando um garoto imbecil qualquer. E um jato, enorme, viscoso de porra a descer pelo colo de Adelaide. Agora confundia as duas. Onde começava Ana, onde terminava Adelaide?

Chorava com raiva. Nem percebia mas chorava. Gritava com a filha, jogou o cachorro no chão, pisou-lhe na pata. Mingau gania.

Empurra a adolescente. Tranca o quarto, e se abraça ao pobre animal.

–        O mundo tá acabando Mingau. O mundo tá acabando Mingau. Nosso mundo tá acabando. Mas a gente vai embora juntos. 

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Adelaide – Parte 2

•agosto 7, 2013 • Deixe um comentário

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Passou a receber Adelaide em casa quase todos os dias. A amiguinha de Ana morava longe. Mas diariamente estava no quarto da filha. Se bem que… Amiguinha? Adelaide já tinha o corpo bem formado, no alto de seus quinze anos. “Se as meninas já menstruavam com doze anos na minha época… essa ai deve ter dito a menarca com sete meses”.

A cintura de uma sílfide. A bunda maçãzinha. Os pelos da perna, de um loiro imoral. E a coxa vital, forte, graciosa. Leve. Seios. Duros. Redondos. Fácil imaginar aqueles mamilos. Rosas. Tem de serem rosas. A barriga chapada, que talvez os anos maltratassem. Quiçá, a má alimentação e o sedentarismo lhe afofem. Mas não. Assim, ainda é linda.

E o rosto? Bem o rosto de Adelaide merece um novo parágrafo. A bochecha com aquela covinha protuberante. Poderia ser chamada de bochechuda. Mas preferia dizê-la: (internamente é claro) ‘divina’. A covinha única no lado direito. A pele (branca, mas sem exageros) aveludada. Pequena cicatriz no pescoço, um convite a um chupão. Os olhos vivos, malignos, verdes. E ‘Ade’ (o modo como Ana sempre a chamava) tinha aquele cabelo que sempre foi sua fissura. Adelaide era ruiva natural. De cor quase laranja. Ruiva mechas encaracoladas. E a pele com sardas. Puta merda. Morreria metendo naquela garota.

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Estava numa obsessão tão grande por aquela menina que não o incomodava nem o sotaque paulistano insuportável da adolescente. Ele era santista, mas não aguentava o sotaque de seu estado natal – que perderá a custa de vinte e cinco anos de muito esforço. Mas em Adelaide aquela mania de terminar em ‘aaaaannnnnn’ as palavras e usar o gerúndio como filosofia de vida, lhe tornava ainda mais sensual. O ‘paulistismo’  em Adelaide era um espartilho fonético.

E nessa toada, acompanhava Adelaide e Ana caminhando do quarto para a cozinha. Da cozinha para o quarto. Pequenos segundos, de esguelha de olho que eram o grande momento de seu dia. A moça sempre de vestidinho.

Certa vez chegou encharcada pela chuva, em seu apartamento. Na mesma tarde, Ana comentou o quanto as duas jovens se aproximaram nos últimos meses. Internamente, pensou ser a causa dessa aproximação. “Está apaixonada por mim, a ninfetola!”. Massageando esse pensamento, abriu a porta: Quase infarta. Sua ponte de safena por pouco não rebenta. Vestindo um leve fru fru branco, Adelaide estava tão molhada, que praticamente estava nua. Gotas do temporal desciam em seu colo. Os bicos do seio pronunciavam-se por trás do sutiã.

        O seu Rani, deixa eu entrar? To pura água.

–        Entra minha filha. Ana tá no quarto.

Imediatamente mete dois tridents (de morango) na boca. Começa a mascar em profunda fúria. Queria ser o vestido. Queria ser o chiclete. Queria ser a curva da nádega de Adelaide. Mas mais que tudo, queria ser a chuva, que gripava a mocinha.

No quarto ao lado, Adelaide, flor de sua obsessão – espirra.

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Adelaide – Parte 1

•julho 30, 2013 • Deixe um comentário

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             Conheceu Adelaide no aniversário de quatorze anos da filha. Achou o nome de ‘gente velha’. Adelaide. Não de uma mocinha de quinze aninhos. Uma debutante. Imediatamente sacou um trident do bolso. De morango. Começou-o a mastigá-lo compulsivamente. Havia abandonado o cigarro lá pelos vinte e tantos. Na realidade ainda fumava. Mais quando bebia. Porém, fumava. Às escondidas.

            Recém-saído do primeiro infarto. Todos muito emocionados com a sua presença ali na festa. Principalmente sua filha, Ana. Tinha um xodó obsessivo pelo pai. Adorava-o. Namorava as fotos do pai, e em seu quarto havia até posters do combalido jornalista. Era o seu ídolo pessoal. Não curtia tendências da moda, mas se dependurava nos livros, discos e vídeos que o progenitor lhe sugeria.Escuta filha, esse do Jards é foda”. E lá ia a menina, ouvir ‘Revendo Amigos’, como numa noite setentista.

            Ao ver (ou seria rever? já conhecia Adelaide?) pensou em Vladimir Nabokov. Em tantas taras reprimidas. Na respiração tropega. Na barriga, já avantajada. Na promessa sempre adiada de voltar a nadar. “Mas pelo menos eu me alimento bem!” – pensou, lembrando do refogado de legumes (com bacon) que preparava diariamente há uns quinze anos.

            Entre uma dentada e outra, o chiclete perdeu o sabor em tempo recorde. O mais rápido chiclete a perder o sabor na história do mundo, decerto. Percebeu que todo o esforço mnemônico e especulativo, que pareceu ser longo em sua mente, não havia tomado mais que alguns segundos no chato mundo real. Chato chato chato, boooooooring.

            Adelaide tentava acender o isqueiro – queria incandescer rapidamente as velinhas, símbolo dos quatorze anos de Ana. ‘Quatorze anos, puta merda – tempo de merda, passa rápido’.

–        Adelaide! Acende logo, papai quer bater foto minha com o bolo acesso. Né pai?

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            (cacete. Tempo de merda. A menina já tem quinze anos. Quatorze, aliás. Não achava que eu chegava vivo pra ver isso, mas já que cheguei puta merda. Tempo do cacete.)

–        Hein pai? Bate a foto. Pega a câmera. Pai?

–        Hã filha? Isqueiro?

–        Não pai. A câmera. Aquela analógica. A retrô.

–        Claro, filha, eu ajudo a acender.

            Caminhou até Adelaide. Lembrou de seus tempos de boy. Garotão. (“ah, com vinte e poucos anos, eu era até bem sedutor. Dizem que todo homem tem três fases boas com as mulheres. Todas as minhas foram entre os vinte um, e os vinte e oito anos!”)

            Em um momento de deslocamento de realidade, se imaginou em porta de bar. Cerveja já subia pela cabeça (havia abandonado definitivamente os destilados. Cerveja dava barriga, mas não causava vomito). Chegou com lastro da antiga sensualidade cômica. Pega o isqueiro (aonde arranjou um isqueiro?). Aproximou-se de Adelaide, como se fosse acender um cigarro para a ninfeta. Corrigiu em último momento. Leva a brasa até a vela de aniversário. Arroxeado e sem folego:

–        Feliz aniversário filha.

            Ana e Adelaide riem. Ana beija o pai.

 

(fim da parte um)

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Sobre asma e paternidade

•julho 29, 2013 • Deixe um comentário

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Absolutamente nada a ver com o que eu vou escrever, mas o vô Zimmerman cantava uma canção que a vó Caetana regravou (versão essa, que ficou bem melhor que a original).

 

Standing on the waters casting your bread

While the eyes of the idol with the iron head are glowing.

 

Mas o tema do texto não é esse. Que é: Vou ser pai a qualquer momento. Inclusive, escrevo essas mal traçadas linhas na véspera (ou antevéspera) do nascimento de minha primogênita. E no momento em que essa página for lida, Teresa será um recém-nascida. Ou até mais velha. Isso é o belo da literatura. Ser vivo, o papel, o texto – o ajuntamento de sujeito e predicado.

A metamorfose do homem diante da iminente paternidade já foi tema de um (s)cem número de obras ficcionais e/ou profundamente autorais. Tem os caça niqueis hollywoodianos em que atores de barriga protuberante esquivam-se da responsabilidade, até entender que a vida só tem sentido quando sua carga genética é passada adiante. E teve aquele outro personagem de faz-de-conta que disse: “crescei-vos e multiplicai-vos.”

O que me lembra de um colega que disse-me certa feita (há mil years ago) “para a biologia, você só existe se gerou descendência”. Sabe-se se lá se isso é verdade, ou donde ele tirou essa informação. De todo jeito, isso me causou forte impressão. Na adolescência eu tinha um daqueles pânicos estilo Woddy Allen – “e se por ventura eu for infértil? Estéril. Isso significaria que eu não existo? Que eu sou nulo biologicamente? Como atingir a imortalidade neste caso”?

Se Deus não existe, e a vida é passageira, como existir além da matéria? Desde então me orientei por duas lógicas. A saber:

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1 – O autodestrutivo: É o mote do ‘Clube da Luta’ (leitura recomendadíssima, alias) “Você só se conhece ao se colocar no limite extremo”. Autodestruição como caminho para o autoconhecimento.

2 – O covarde: Motivado por extrema carência, eu quis ser conhecido. Dormir no sonho de outrem, que minha palavra repercuta na sensibilidade alheia.

 

**

Mas isso não importa. Tudo que é solido desmancha no ar. E papai morreu em meus braços – no dia do aniversário de mamãe. E por outra coincidência, Teresa quase nasce nessa mesma data (dois anos depois). Eu, metido a ler sinais sobrenaturais e significados, via nisso uma continuação, uma sentença de repetição.

 

**

 

Donde se concluí que a vida é o império do aleatório. A tal ‘mudança muito estranha, mais pureza, mais carinho mais calma, mais alegria, no meu jeito de me dar’ não se dá na epifania. Se dá no dia a dia, quando ao se olhar no espelho, vai se reconhecendo, e se conhecendo, um centímetro por amanhecer.

E vem daí o desespero, a sanha absoluta por viver. Pela filha sim. Mas ela também vai errar muito. Eu vou. Todos nós vamos errando. Nos moldando diante das circunstâncias. A consciência, e a capacidade de se alegrar e entristecer é elástica.

Papai falava pra mim sempre um versinho:

“Quem passou a vida em brancas nuvens

E em plácido repouso adormeceu,

Quem não sentiu o frio da desgraça,

Quem passou pela vida e não sofreu

Foi espectro de homem, não foi homem,

Só passou pela vida, não viveu.”

E por mais simplicista que seja, acho que condensa tudo isso. Mas não há motivo para chorar. De maneira geral, existe mais risada, mais beijo, mais canção. E isso me alivia a noite.

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Um pouco sobre a Libertadora – e mais um pouquinho sobre a Sorte

•julho 25, 2013 • 1 Comentário

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Escrevo antes do jogo. E o jogo é essencialmente um ato que já aconteceu. Milhões e centenas de vezes. A expectativa está lá. E dizem (não acredito!) que o mágico do esporte, é que vive ali, a cada lance, a cada jogada – o imponderável. O mágico, o mítico. O absurdo.

Mas o que eu queria dizer, é que na realidade, na mais amarga delas, nós já sabemos o resultado da partida. Não existe ai nenhuma prepotência minha. Ou sensação de onisciência. Conforme eu vou escrevendo, percebo a linha de minhas idéias, e elas estranhamente passam a fazer sentido.

Meu ponto de vista é aquele, que vi recentemente naquele livro…

****************

(Fui interrompido na feitura do texto. Bom. Vai dar outra qualidade ao texto, retomá-lo depois. Acho bonito. A coisa em processo, o risco do real.)

****************

Volto a escrever, já transcorrida a partida, e já desenvolvido o resultado. Faz sentido novamente para mim, a minha teoria de ontem. Que na realidade, nem é tão minha. Mas voltemos a ela:

Eu dizia, que já sabíamos qual seria o resultado da match, antes dela transcorrida. Claro que não quero dizer, que há dentro de um e cada um de nós {seres humanos} um vidente. Não. O que pretendo explanar com calma e clareza é que em cada instante humano, reside um infinito de universos possíveis. Potenciais. E que cada decisão (ou ‘flip’ do destino) acarreta na continuidade deste universo ‘normal’. Mas a escolha não anula outro universo qualquer. O ‘que aconteceria se?’ tivéssemos feito diferente.

Voltando. O que teria acontecido se o time ‘A’ não tivesse feito aquele gol, aos tantos do segundo tempo? Bem, o time da casa não teria sagrado a vitória, tantas e tantas pessoas teriam ido embora chateadas, outras tantas felizes .Casais não teriam trepado, brigas de faca  não teriam sido travadas, paixões despertadas e tristezas acometidas. E é aí que é dito que existe o ‘mágico’ – do futebol e do esporte. Imitação ou representação da arena do real, ali todo instante é decisivo.

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Até aqui, defequei obviedades metafísicas, e teorias quânticas empobrecidas. Aonde mora o gancho do texto, o toque pessoal então? Aqui, mal colocado, depois de várias linhas chatas, arrastadas e com erros de concordância. Vá lá.

Creio que, no âmago do fundo do coração, da mente – já temos uma cena mentalizada – para cada evento que a vida imponha. Já tínhamos uma idéia de como seria a comemoração, o grito de alegria se o Atlético vencesse. Da mesma forma, cada um já tinha arraigada, triste amargura em caso de derrota. Nesse ponto, afirmo que já sabíamos (e eu já sabia) o resultado da partida. Já sabemos do resultado de todas as partidas. E por partida, digo qualquer evento futuro.

(exagerei um pouco na força dos argumentos no último parágrafo. Vou decrescer um pouco essas idéias, para que eu não pareça um imbecil.)

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Mas para onde vão esses universos possíveis? Desaparecidos vagam sem rumo na dimensão das expectativas frustradas? (Que lembra o titulo daquele livro do Dickens – que nunca li, mas acho lindo – ‘Great Expectations’) Será que todas as realidades não realizadas convivem (numa imagem fantasiosa), conversando sobre como tudo poderia ser diferente. Tal qual um asilo, com velhos tristes, olhos cansados, abandonados pelos seus. Cheiro de sebo, até que vão sendo esquecidos, arrependidos, tão arrependidos.

Em verdade, essa relação, esse peso de ter feito diferente, cabe a nós. Essa vontade de ter feito tudo diferente. Ou muita coisa. Chama ‘remorso’.

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            O Mark Twain falou numa carta qualquer a um amigo “desculpa, escrevi com pressa, se tivesse tempo, a carta teria ficado mais curta.” É adepto daquela teoria que ‘jornalismo é a arte de cortar palavras’. Eu sou prolixo. Gosto de cartas longas. Talvez seja um vício vindo dos tempos de colégio, quando menino de calças curtas, recebia o pedido da redação com no mínimo 25 linhas. Ai fui esticando as letras, demorando a desenvolver os argumentos. Acreditei que mais é melhor. E geralmente é.

Ali, logo aqui, faço o mea culpa, assumindo que pelo pouco ou muito que vivi, existe sim no território do aleatório, mais coisas que podem e vão acontecer, e que não tem como ser antecipadas, ou preparadas. Por mais que saíamos na rua com um guarda-chuva, ele pode ser roubado. E a chuva vai insistir em molhar. Destino, impossível de ser escapado?

Existia então, a sina de que o Galo seria campeão, ontem? Após mais um resultado adverso, com todas as químicas e trechos típicos deste roteiro centenário. Por que a vitória não veio fácil, tranqüila? Ou simplesmente não veio? Vai respondendo, enquanto eu vou pensando.

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Rene-MagritteThe-Great-War

Penso sempre no amor. Alias, sou um obsessivo. Se colocasse minha cabeça para produzir mais conteúdo, e meu corpo menos anestesiado para fugir das agonias do coração, eu poderia dar certo na vida. Mas toco nisso, porque é no amor (mais do que no esporte) que o imponderável, o mítico fica mais forte. Apresenta-se com mais clareza. Será que algum dia terei uma nova tarde, longa feliz, com aquela ex-amada? O que teria acontecido se eu tivesse tomado aquela atitude corajosa, ao invés da covardia comodista? Será que eu já conheço a próxima Ela? Está perto? Já consigo sentir a nuca eriçada. O corpo em frêmito. A baba bovina e elástica dos apaixonados, a brincar na minha boca?